terça-feira, 22 de setembro de 2009

A Morte Madrinha (Irmãos Grimm)

Encontrei um de meus contos favoritos dos Irmãos Grimm, é um pouco desconhecido, mas eu gosto bastante.

Meu amigo Mateus me contou ele há alguns anos, e demorei pra lembrar de procurá-lo para ler, agora fica para quem tiver interesse.




A Morte Madrinha
(Irmãos Grimm)

Um homem pobre teve doze crianças e teve que trabalhar dia e noite, a fim de que pudesse lhes dar, pelo menos, pão. Então, quando veio ao mundo o décimo terceiro, sem saber como socorrer sua necessidade, mandou-se para a grande estrada rural e quis pedir auxílio ao primeiro que encontrou. O primeiro, que o reconheceu era o Amado, Deus, que já sabia o que ele tinha no coração, e falou com ele:

Pobre homem, leve-me contigo, eu quero erguer sua criança na pia batismal, cuidar dela e fazê-la feliz na Terra.

O homem falou:

- Quem é você?

- Eu sou o Amado, Deus.

- Então, não o quero para compadre - disse o homem - Você dá aos ricos e deixa os pobres com fome.

Assim disse o homem porque ele não sabia como, sabiamente, Deus distribui riqueza e pobreza. Então, ele virou as costas para o Senhor e continuou. Mais à frente, o diabo deparou-se com ele e disse:

- O que você procura? Se você quer me tomar como padrinho de sua criança, então, eu quero cobri-la de ouro e opulência, e dar a ela todos os prazeres mundanos.

O homem perguntou:

- Quem é você?

- Eu sou o diabo.

- Então, não desejo você como compadre - disse o homem - você seduz e tenta as pessoas.

Ele continuou, até que as pernas secas da morte se aproximaram dele e ela disse:

- Aceite-me como compadre!

O homem perguntou:

- Quem é você?

- Eu sou a morte, a que nivela tudo.

Então, disse o homem:

- Você é coerente, você trata os ricos como os braços, sem diferença, permito-lhe que seja minha comadre.

A morte respondeu:

- Eu quero fazer sua criança rica e famosa, pois quem me tem como amiga, com ele não posso falhar.

Disse o homem:

- Domingo próximo é o batismo, esteja lá no devido momento.

A morte apareceu como tinha prometido a ele, e assumiu pra valer o patrocínio.

Depois de muitos anos, quando o menino ficou rapaz, a madrinha visitou seu afilhado e mandou que ele a acompanhasse. Ela conduziu-o até à floresta, mostrou-lhe uma erva que havia crescido, e disse:

- Agora, você deverá receber seu presente de afilhado. Vou tornar você um doutor famoso. Cada vez que você for chamado por um doente, vou aparecer para você; se eu ficar à cabeceira do doente, então, você poderá falar, corajosamente, que vai recuperar a saúde dele novamente, e você ministrará a ele essa erva, para que ele, de fato, se recupere. Mas, se eu me postar à frente dos pés do doente, então, ele é meu, e você dirá que toda a ajuda é em vão, e que nenhum doutor no mundo poderia salvá-lo. Mas cuide-se para não usar a erva contra minha vontade, poderia ser ruim para você.

Não demorou muito, o rapazinho tornou-se o médico mais famoso do mundo. Basta que ele examine o doente, logo ele sabe como ele está, se ele vai ficar são, ou se deve morrer!

Assim falavam dele, e de todos os rincões vinham pessoas que lhe traziam os doentes, e lhe davam tanto ouro que logo ele tornou-se um homem rico. Então, aconteceu que o rei adoeceu. O doutor foi chamado e deveria dizer se ele tinha possibilidades de convalescer. Mas, quando ele chegou à cama, lá estava a morte aos pés do moribundo, e nenhuma erva mais havia crescido para ele.

- Se eu pudesse burlar a morte, pelo menos, uma vez - pensou o doutor - é certo que ele vai levar a mal, mas, como sou seu afilhado, ela vai me desculpar. Vou ousar.

Então, ele pegou o doente e inverteu sua posição, de modo que a morte ficasse à cabeceira. Em seguida, ministrou-lhe a erva e o rei recobrou os sentidos e ficou são novamente.
A morte veio, porém, ao doutor, fez-lhe uma cara preta de raiva, ameaçou-lhe de dedo em riste, e disse:

- Você me enganou: desta vez vou lhe perdoar, porque você é meu afilhado, mas, se você ousar fazer isso novamente, pego-lhe pelo colarinho, e levo embora você mesmo.

Pouco tempo depois, a filha do rei contraiu uma grave moléstia. Era sua filha única, ele chorou dia e noite, até que seus olhos ficaram cegos, e mandou publicar que quem a salvasse da morte deveria tornar-se esposo dela e herdar a coroa.

O doutor, quando veio à cama da doente, viu a morte aos pés dela. Ele deveria ter se lembrado da advertência da sua madrinha, mas a magna beleza da princesa e a sorte de tornar-se seu cônjuge o seduziram tanto, que ele jogou todas as lembranças ao vento. Ele não viu que a morte lançou-lhe raivosos olhares, com a mão erguida bem para o alto e o punho cerrado ameaçador; ele ergueu a doente, e inverteu sua posição na cama, de modo que os pés ficaram onde estava a cabeça e vice-versa. Então, ministrou-lhe a erva e, logo após, as maçãs do rosto dela se avermelharam, e a vida refloresceu nela novamente.

A morte, como havia sido enganada por seu possuído pela segunda vez, foi com largos passos ao médico e disse:

- Terminou para você e, agora, você é o próximo da fila!

Agarrou-o tão firmemente com sua mão fria que ele não pôde resistir, e o conduziu para uma caverna subterrânea. Lá, ele viu, como queimava uma interminável fila de milhares e milhares de luzes, algumas maiores, outras médias e outras menores.A cada instante, algumas apagavam e outras flamejavam, de tal modo que as chamas, em mudança constante, brilhavam e saltavam pra lá e pra cá.

- Veja - disse a madrinha - Essas são as luzes das vidas humanas. As maiores são das crianças, as médias pertencem aos adultos em seus melhores anos, e as menores pertencem aos velhos. Porém, também as crianças e pessoas jovens têm, freqüentemente, luzes pequenas.

- Mostre-me a luz da minha vida - disse o doutor, pensando que ela ainda seria bem grande.

A madrinha apontou para uma bem pequena, já no finalzinho, que ameaçava apagar, e disse:

- Veja, lá está.

- Oh, querida madrinha - disse o doutor, apavorado - Reascende-me uma nova, por minha causa, de forma que eu possa desfrutar minha vida, tornando-me rei e marido da bela princesa.

- Não posso - respondeu a morte - primeiro, uma tem que apagar, para que uma nova possa arder.

- Então, ponha a velha sobre uma nova, de mesma intensidade, já que aquela está no fim - Pediu o doutor. A morte agiu como se quisesse atender o seu desejo e apanhou, ali perto, uma luz grande e fresca; mas, como quis vingar-se, equipou-a, de propósito, com um tampão, e a luz pequena rodou e apagou. Imediatamente, o doutor foi sugado pelas profundezas da Terra, e foi parar, então, na mão da morte.


The end! Ninguém brinca com a Morte...

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